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A economia portuguesa está a viver um ciclo de otimismo. Depois da saída do Procedimento por Défices Excessivos e dos elogios alemães ao nosso “Ronaldo das Finanças” a agência de notação financeira Fitch voltou a atribuir uma perspetiva positiva ao rating da dívida pública portuguesa. Ainda não é a tão desejada saída de “lixo”, que grande parte dos políticos portugueses já dá como garantida, embora seja um sinal de que os mercados financeiros começam a olhar de uma forma diferente para Portugal.

Mas é preciso que este ciclo não venha a descambar numa amarga desilusão. Quer o primeiro-ministro quer o Presidente da República já chamaram a atenção para os riscos de um clima de “deslumbramento” contagiar os portugueses. Se o comportamento da economia – a beneficiar de um boom turístico sem precedentes em Portugal – é motivo de satisfação, há indicadores sobre a saúde financeira do país que merecem uma particular atenção, sobretudo numa altura em que já se negoceia o Orçamento do Estado para 2018.

É para alguns desses indicadores que olha o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). No seu relatório de 2016, aprovado numa reunião realizada na semana passada, previne-se o Governo português quanto ao elevado nível da dívida pública e do crédito malparado. O MEE considera mesmo que a redução do peso da dívida pública – o terceiro mais elevado da UE a seguir ao da Grécia e Itália –  é ainda um grande desafio e aconselha o Governo a desenvolver políticas fiscais prudentes para baixar o alto nível da dívida. Também considera que o sistema bancário português continua a ser vulnerável devido à sua baixa rendibilidade, embora destaque pela positiva a recapitalização do BCP e da Caixa Geral de Depósitos.

No referido documento, o MEE afirma que para impulsionar o crescimento a longo prazo, Portugal deve continuar a tomar as medidas de promoção da competitividade recomendadas pelo Conselho Europeu. Este relatório tem o mérito de chamar a atenção para um conjunto de situações que continuam a ser uma ameaça à estabilização financeira do país. Assenta que nem uma luva nas recomendações de prudência que se têm vindo a ouvir nos últimos tempos perante a onda “avassaladora” de notícias positivas sobre a economia portuguesa.

Por conseguinte, apesar dos bons resultados obtidos em 2017, convém continuar a prestar muita atenção a dados que são essenciais para consolidar tendências e modificar, de uma forma estrutural, a economia. Se não melhorarmos a competitividade para aumentarmos o crescimento potencial, perante uma eventual (e até mais do que provável) subida das taxas de juro, correremos o risco de termos de enfrentar de novo o problema do financiamento global da nossa economia.

Jorge Jordão
Presidente da Confederação dos Serviços de Portugal

O autor escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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