Os sinais preocupantes das mudanças em Itália e Espanha

O governo socialista tem beneficiado, desde que tomou posse, de uma conjuntura internacional favorável. Os preços do petróleo em baixa no mercado internacional, a derrota de tensões populistas em países de referência na UE e o Banco Central Europeu prosseguindo a política de ´quantitative easing´ com a compra de generosas fatias da dívida portuguesa, permitiram a António Costa viver dois anos e meio de relativa estabilidade, governando em condições francamente mais favoráveis do que o seu antecessor.

O panorama parece, porém, estar em vias de se alterar. O BCE não tardará a pôr fim aos estímulos artificiais às economias que teimam em divergir da média europeia e avizinham-se tempos turbulentos na terceira e quarta economias da zona euro. Desde logo em Itália, onde acaba de tomar posse uma inédita coligação entre os populistas do Cinco Estrelas e os extremistas xenófobos da Liga – forças políticas que têm como inquietante denominador comum o combate às instituições europeias e à moeda única. Mas, também em Espanha, onde acaba de cair o executivo conservador de Mariano Rajoy, que cedeu o lugar ao socialista Pedro Sánchez, com a maioria política mais frágil de sempre na Câmara dos Deputados. Isto ameaça trazer mais instabilidade, num cenário já perturbado pelos impulsos independentistas da Catalunha.

Não esqueçamos que Espanha é o nosso maior parceiro comercial e qualquer perturbação adicional no país vizinho pode ter efeitos negativos deste lado da fronteira.

Atendendo ao risco do regresso à crise das dívidas soberanas devido à instabilidade politica naqueles dois países e, em particular, ao peso da dívida pública italiana, Portugal poderá encontrar dificuldades adicionais para financiar a sua economia, tornando-se o serviço da dívida num fardo cada vez mais difícil de sustentar.

Ao contrário do que fez a Irlanda, por exemplo, temos sido demasiado lentos no reembolso da dívida. Desperdiçámos oportunidades de uma conjuntura altamente favorável para levar a cabo decisivas reformas estruturais tendentes a atrair o investimento, designadamente a aposta continuada numa maior flexibilização laboral e uma redução planeada do IRC.

Não cuidámos de neutralizar algumas das nossas maiores vulnerabilidades, ficando mais expostos aos riscos de mudanças gravosas na conjuntura, que, infelizmente, parecem estar agora a desenrolar-se.

Não foi por falta de aviso que as reformas ficaram por fazer em tempo útil. Se os dias de forte turbulência regressarem à economia portuguesa, só poderemos queixarmo-nos de nós próprios.

Jorge Jordão,
Presidente da Confederação dos Serviços de Portugal

O autor escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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